Ecofeminismo

Ecofeminismo

Definição

Vertente feminista que aponta a lógica de dominação existente entre todas as formas de opressão fundadas na estrutura de poder capitalista, como as violências patriarcais, racistas, especistas, classistas, e como estas se interconectam com as questões ambientais.

Aspectos distintivos

Durante as décadas de 1970 e 1980, grandes preocupações ocuparam os centros dos debates sociais e políticos a respeito das relações ambientais e a intensificação da exploração do meio ambiente em decorrência da expansão global capitalista. Os movimentos feministas também passaram a incorporar dentro dos seus espaços de radicalidade estudos e abordagens relacionadas à intersecção entre as opressões advindas da estrutura de poder capitalista, sobretudo do patriarcado, com a destruição do ecossistema e as opressões de gênero.

O tema foi abordado cientificamente pela primeira vez em 1974, pela feminista francesa Françoise d'Eaubonne, a qual o utilizou a expressão ecological feminisme, a fim de manifestar a necessária atenção dos movimentos feministas para uma revolução ecológica potencializada. A vertente ecofeminista surge como um verdadeiro marco político a partir de onde se explica, minuciosamente, os processos de construções históricas das sociedades a partir de vieses atentos às relações capitalistas como, o neocolonialismo, neoliberalismo, a violência doméstica e infantil, os processos de militarização, desmatamento, extrativismo e também as mudanças climáticas.

Do mesmo modo como o movimento feminista representa pluralidade, em decorrência das singularidades identificadas pelas diferentes integrantes como os critérios de raça, classe e etnia, o ecofeminismo, da mesma forma, é movido por peculiaridades e representatividades, de tal forma que dentro da própria vertente há posicionamentos e debates desenvolvidos a partir de diferentes pontos de vista.

Assim, considerando a existência dessas pluralidades, algumas correntes podem ser identificadas no movimento como o ecofeminismo cultural, liberal, social e radical/revolucionário, marxista, o clássico, espiritualista e o construtivista. Apesar das distinções entre cada espécie, o que a corrente majoritária compreende são os modos com que as lutas feministas passam a abordar a perspectiva anticapitalista, rumo à desconstrução de um modelo produtivista que trata o meio ambiente e as mulheres como mercadoria, bem como constrói mecanismos de exploração e subjugação de corpos femininos do mesmo modo em que trata a natureza como mero objeto de poder e de dominação masculina.

O termo evoca as bases dos movimentos feministas visando a construir pontes para dialogar a respeito de possíveis saídas para a problemática ambiental, em decorrência das ações humanas, assim como das questões que visam a transformar drasticamente o paradigma atual, buscando novos modelos de vida tanto para as mulheres, como para os animais não humanos e ecossistemas. Livres, portanto, de exploração e opressão, ao mesmo tempo em que se buscam mudanças semióticas acerca da predominância patriarcal.

Análise

Muito antes da formulação terminológica, algumas autoras já estavam ressaltando a importância de abordar teoricamente as ligações existentes entre as perspectivas de gênero com a natureza. Isso porque, assim como as mulheres são intensivamente rotuladas e estereotipadas, enquanto sujeitos passivos, dóceis, femininos, vulneráveis, a natureza também é levada a esse patamar de etiquetamento social, sendo justificada a sua dominação e expropriação pelo patriarcado.

Teóricas feministas alertam sobre a necessidade de se (re)pensar em epistemologias feministas que deem conta das realidades geográficas de cada localidade quando da abordagem ecofeminista, uma vez que as formas e realidades da exploração ambiental e de gênero, mudam drasticamente, dependendo da região. Para tanto, as práticas de dominação e exploração do patriarcado em países localizados ao Norte Global são radicalmente diferentes dos países do Sul Global, pois demarcam distinções entre colonizadores e colonizades.

Algumas críticas são realizadas sobre as construções epistemológicas a respeito das perspectivas ecofeministas como, por exemplo, o viés universalista e/ou espiritualista, o(s) qual(s) reporta(m) que as mulheres, por estarem em conexão com sua espiritualidade e biologicamente ligadas à maternidade, possuem uma maior sensibilidade e afetividade com a natureza. Tal corrente acaba por reproduzir e legitimar a imposição de papéis femininos sobre as mulheres no âmago das sociedades patriarcais e sexistas.

Sendo assim, a teoria crítica em relação ao ecofeminismo universalista e/ou espiritualista, aponta que as mulheres possuem uma relação mais próxima com a natureza, mas não em decorrência dos critérios biológicos, maternais, reprodutivos e sexuais e sim, pelas imposições patriarcais, as quais destinam as mulheres, exclusivamente, as atividades dentro do espaço privado e, como este não era considerado socialmente o ambiente masculino, possuíam menos valor para o desenvolvimento das sociedades.

Outra principal crítica apontada pelo ecofeminismo é a necessidade de transformar o paradigma científico masculino branco hétero universalizante, propondo visões analíticas sobre os diferentes vieses filosóficos, ideológicos, políticos e culturais, de modo que a comunidade científica passe a abordar os nuances entre as opressões de gênero ligadas aos critérios de raça, etnia, classe e espécie.

Não obstante o movimento traga consigo divergências epistemológicas, busca-se romper com a ideia de que a natureza e gênero se coadunam por fatores biológicos, ou seja, o mero essencialismo. Para tanto, desenvolveram-se teorias de reconhecimento cultural e de igualdade social, de modo que as lutas e resistências, até então obtidas pelos movimentos plurais feministas, não se reduzam, mas dialoguem e apresentem críticas capazes de contribuir com um viés emancipatório e interseccional, o qual dê conta das responsabilidades a ser adotadas com o mundo em que vivemos, da sobrevivência das mulheres, bem como do ecossistema.

O antropocentrismo e o androcentrismo são radicalmente criticados dentro do movimento ecofeminista, considerando que estes se ascenderam com o fortalecimento do sistema capitalista neoliberal, criando grandes empecilhos para a sobrevivência das mulheres e da natureza. Assim, o movimento ecofeminista busca realizar profundas mudanças nas estruturas da sociedade, erradicando qualquer forma de exploração, opressão e dominação, centradas no pensamento hegemônico patriarcal, e nas hierarquizações de gênero, raça, etnia, classe e espécie.

As mulheres, assim como a natureza, são fruto de categorias construídas socialmente, portanto, como o meio ambiente é desvalorizado, pois sempre considerado fonte inesgotável de recursos naturais e, estando a bel prazer dos desejos do sistema patriarcal, as mulheres também são desvalorizadas e reduzidas a fatores de sensibilidade e fragilidade da natureza, as quais, portanto, podem ser exploradas e dominadas.

As ecofeministas também apontam análises criteriosas no que diz respeito as formas filosóficas de se abordar a temática enquanto uma perspectiva utilitarista, tendo em vista que esta não se desprende totalmente da estrutura patriarcal. Algumas autoras propõem uma reformulação teórica dentro do movimento feminista, de modo que a libertação não somente das mulheres e das correntes de gênero possam ser abarcadas pela luta ecofeminista, como também os animais não humanos e ecossistemas. Outras autoras apontam que determinados movimentos feministas já buscavam interligar as diferentes opressões, indicando que sem a abolição de todas, nenhuma outra se manteria viva e livre.

Todavia, o que se pretende definir pela corrente ecofeminista contemporânea, é a necessidade de buscar e difundir o conceito de ecofeminismo, enquanto um projeto de luta que não deixe de lado as demais opressões, sobretudo, que se atente às relações humanas com a natureza.

Nesse contexto, dentro da perspectiva criminológica, utiliza-se o método de análise ecofeminista para ampliar e facilitar a compreensão acerca dos danos sociais praticados pelos Estados, Mercado e grandes Corporações, bem como a sua relação com as práticas sexistas, racistas, especistas e ecocídas. Isso porque, são as mulheres, as pessoas de cor, indígenas e animais não humanos as mais afetadas por tais danos, uma vez que estes são fruto da mantença do sistema capitalista neoliberal, fundado e estruturado em bases racistas, sexistas, especistas e lgbtfóbicas.

Assim, para o olhar criminológico crítico, a libertação das mulheres não pode ser plenamente realizada sem a libertação da natureza, do mesmo modo que esta não pode ser alcançada sem a libertação das mulheres. Dessa forma, o objetivo da luta ecofeminista é trabalhar dentro de uma perspectiva que não ignore ou vise a superar as contribuições e particularidades trazidas pelas diferentes feministas e vertentes até os momentos atuais, mas que, sobremaneira, sejam acrescidas na luta, sobretudo as análises críticas ecofeministas a respeito das diferentes formas de exercício de uma práxis libertadora de seres humanos, não humanos e da natureza.

Referências bibliográficas

COLLINS, Patricia Hill. "Aprendendo com a outsider within: a significação sociológica do pensamento feminista negro", Sociedade e Estado, v. 31, n. 1, p. 99-127, 2016.
MIES, María; SHIVA, Vandana. La praxis del ecofeminismo: biotecnología, consumo y reporoducción. Icaria Editorial, 1998.
ROSENDO, Daniela. Sensível ao cuidado: uma perspectiva ética ecofeminista. Curitiba: Prismas, 2015.
SALLEH, Ariel. "Class, race, and gender discourse in the ecofeminism/deep ecology debate", Environmental Ethics, v. 15, n. 3, p. 225-244, 1993.
WARREN, Karen J. Ecofeminism: women, culture, nature. Indiana University Press, 1997.

Referências artísticas

Nos Caminhos de Margarida (CONTAG, Fetag's e Sindicatos, 2017)
Documentário
Mostra a trajetória de vida e militância de Margarida Maria Alves, liderança rural assassinada em 1983 por defender os direitos de trabalhadoras e trabalhadores no campo, símbolo da luta das mulheres rurais brasileira.

A política sexual da carne: Uma teoria feminista-vegetariana (Carol J. Adams, 2018)
Livro
Conecta as opressões provocadas contra mulheres e animais não humanos pela estrutura de poder patriarcal, interconectando, portanto, práticas especistas e sexistas, as quais compõem as bases da formação da estrutura de poder capitalista.

Sem título (Mídia Ninja, 2019)
Fotografia
Fotografia de Sônia Guajajara com a bandeira brasileira manchada pelo sangue dos povos indígenas, na marcha do acampamento Terra Livre, até o Palácio da Justiça.



Karine Agatha França
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