Newsmaking criminology

Newsmaking criminology

Definição

Atividade de intelectuais do campo criminológico crítico de buscar influenciar na construção das notícias sobre crimes e justiça, com o objetivo de desmistificar as noções populares provenientes de imagens do crime, da criminalidade e da punição produzidas pelos meios de comunicação de massa.

Aspectos distintivos

Esse objetivo decorre da constatação, através de estudos no campo, sobre o papel do jornalismo na construção social da criminalidade e sua influência na produção de políticas criminais punitivistas, de acordo com o clamor público. Esses estudos, partindo de análises de produtos jornalísticos, apontaram para uma sobrerrepresentação dos crimes de rua em relação a crimes cometidos no interior de escritórios ou mesmo no âmbito doméstico; uma sobrerrepresentação de crimes cometidos com violência física e com resultado morte; a tendência a operar através de estereótipos de criminosos como sendo homens provenientes de bairros marginalizados, pobres, negros, malvestidos, muito jovens; os estereótipos de vítimas também atravessados pela questão de gênero, raça e classe; o protagonismo de policiais como fontes credíveis das notícias; a possibilidade de criação de “ondas de criminalidade” através da seleção das notícias operada nas redações, entre outros achados que conduziram à necessidade de produzir alguma atitude no sentido de superar a reprodução massiva das desigualdades através da mídia.

Os estudos sobre crime e mídia na criminologia crítica remontam ao seu surgimento na Europa, e da criminologia radical nos Estados Unidos, com textos marcantes publicados nos anos 1960 e 1970, como a obra Manufacturing News, organizado por Jock Young e Stanley Cohen, e Folk Devils and Moral Panics, de Stanley Cohen. Contudo, o termo newsmaking criminology é mais recente e nasce justamente a partir das conclusões a que chegaram esses estudos anteriores. O termo foi cunhado pelo criminólogo radical Gregg Barak, publicado pela primeira vez em um artigo intitulado Newsmaking criminology: reflections on the media, intellectuals, and crime, no auge da guerra às drogas nos Estados Unidos, em 1988. Nesse texto, Barak introduziu ainda a ideia de que os intelectuais devem se engajar na disputa sobre as definições populares sobre o crime e a justiça, através de sua apresentação como fontes credíveis para os meios de comunicação. Para tanto, o autor expõe a necessidade de que essas e esses intelectuais desenvolvam uma linguagem de base popular, além de competências técnicas que permitam sua participação na produção de informações mediadas, a construir uma ideologia do crime e da justiça para consumo de massa.

Para concretizar esse projeto, Barak faz um chamado a criminólogas e criminólogos para engajarem repórteres, editores e produtores em uma dupla missão. Em primeiro lugar, o autor convida os criminólogos a exporem “convenções jornalísticas e preconceitos sociais, exporem como esses formaram a cobertura (seleção e apresentação) de notícias sobre crimes (crime stories)”. Em segundo lugar, chama os mesmos criminólogos a irem além da crítica, de modo a se envolverem com os discursos populares mediatizados, “mas com visões alternativas, baseados mais em pesquisas científicas do que em tratados moralistas sobre o crime e o desvio”. Seu interesse é o de saber se os criminólogos poderiam fazer análises estruturais e históricas sobre criminalidade e vitimização na comunicação de massa, de modo a ocupar o lugar das tradicionais e a-históricas análises sobre pessoas “boas” e pessoas “más”. Não por acaso, a principal base sociológica desse campo é Gramsci e sua teoria da hegemonia. Nesse ponto, a newsmaking criminology dialoga com a chamada “criminologia pública”, influenciada pelos estudos no campo da sociologia sobre essa necessidade de compreender as ciências sociais enraizadas na realidade das pessoas.

Compreendendo que existe um âmbito cultural no cerne do qual o senso comum se estabelece e orienta as práticas políticas, a chamada “batalha cultural”, para usar a categoria gramsciana, deve ser o pressuposto de qualquer tipo de iniciativa tendente a provocar grandes mudanças sociais. O senso comum, então, é entendido na newsmaking criminology desde a raiz gramsciana, que não o compreende como algo negativo em si, mas sim como o ponto de partida de onde extrair o chamado “bom senso”. O papel dos intelectuais não se dá, portanto, por fora do senso comum, mas sim por dentro dele. Justamente por isso, essa atividade não possui uma orientação impositiva ou autoritária, pelo contrário, compreende que, diante da operação de desconstrução de noções sobre o crime presentes no imaginário social, é necessário, para a conquista da hegemonia, que uma proposta mais convincente de interpretação do mundo seja também apresentada. Isso implica necessariamente no diálogo, na escuta, nas leituras sobre o que realmente faz sentido para as pessoas no que tange à temática da criminalidade e da punição.

Dialeticamente falando, Barak entende, na esteira do interacionismo simbólico, que a influência entre, de um lado, o pensamento e a ação da sociedade e, de outro, as representações da mídia, é recíproca e que, se ambos estão sujeitos à interação, cabe aos criminólogos se esforçarem para influenciar nesse processo em vários pontos. A ideia principal desenvolvida pelo autor é a de propiciar uma quebra com os diálogos exclusivamente entre acadêmicos em revistas científicas, de modo a atingir o público com seus conhecimentos sobre o crime e o desvio. Assim, torna-se necessário “expor a natureza cultural e político-econômica do problema criminal, e mostrar as conexões necessárias entre essa natureza e a maneira pela qual o crime costuma ser definido, como um tipo particular de patologia individual ou problema social”.

Se, por um lado, o termo é originalmente construído por Barak, outras autoras e autores produziram propostas bastante semelhantes, em textos publicados em línguas latinas. É o caso de Alessandro Baratta, quem faz uso do conceito gramsciano de batalha cultural, e propõe, ao final de Criminologia Crítica e Crítica do Direito Penal, a reversão das relações de hegemonia cultural, através do trabalho de crítica ideológica, produção científica e informação por parte dos criminólogos críticos. Em sua concepção, para que o discurso crítico alcance o senso comum, de maneira a se constituir em base ideológica a uma política criminal alternativa, é necessário promover uma discussão de massa sobre a questão criminal na sociedade.

A pesquisadora venezuelana Lola Aniyar de Castro, uma das mais importantes precursoras do campo da criminologia crítica latino-americana também propõe algo semelhante, quando define a urgência de produzir contraideologia, não apenas pelo âmbito criminológico, mas através dos esforços de grandes contingentes intelectuais interdisciplinares, desentrincheirando-se da especialização extrema para travarem uma luta contra o inimigo mais sólido: o da ideologia, que opera no nível da construção social da realidade.

Análise

A questão colocada diante desse chamado é o “como”. Que métodos podem ser usados para que de fato os espaços midiáticos possam ser ocupados por um discurso crítico sobre o crime e a justiça penal? Os desafios são vários. Em primeiro lugar, a comunicação de massa é liderada por empresas, as quais têm no lucro com publicidade – e, portanto, com audiência – o seu sustento. Vende-se o que é demandado pelo público. Mas está o público interessado em um discurso crítico? Além disso, na medida em que se busca tratar de uma ruptura com a ideologia dominante, não são os próprios meios de comunicação, enquanto empresas, em sua maioria, representantes desse pensamento e interessados na manutenção do status quo?

As atividades de newsmaking criminology sofreram um forte impacto das importantes transformações tecnológicas operadas desde o surgimento do termo no campo criminológico. Alguns dos limites claramente impostos a elas eram inerentes às mídias tradicionais, como, por exemplo, o caráter unidirecional da emissão das mensagens através dos meios de comunicação, e, é claro, a necessidade de possuir um veículo de comunicação para poder produzir informação. Ambas são características que, se não superadas completamente, certamente não são as mais importantes limitações, haja vista a facilidade com a qual qualquer pessoa hoje produz informação e divulga através das novas mídias. Mídias alternativas têm se multiplicado em razão da facilidade técnica dessas novas ferramentas, propiciando a oxigenação das compreensões sobre o mundo.

Algumas das principais críticas dirigidas à newsmaking criminology vão ao encontro dessas últimas questões: apesar de louvável, a iniciativa de influenciar na conformação do senso comum sobre o crime e a justiça deve estar conectada com a realidade material das pessoas, não podendo partir de uma verticalização desde a academia para a sociedade, pois é algo que apenas se produz na interação e implica, então, em escuta. Assim sendo, deve ser uma atividade pensada não apenas para a criminologia, mas para todos os âmbitos da ciência que possam contribuir na melhoria das condições de vida das pessoas. Ou seja, para que isso se torne realidade, é necessário que todo o comprometimento com a transformação social em que a academia venha a se engajar deva sempre partir do ponto de vista dos grupos sociais vulneráveis às dinâmicas estruturais de opressão operadas pelo sistema penal.

Referências bibliográficas

BARAK, Gregg. “Newsmaking criminology: Reflections of the media, intellectuals, and crime”, Justice Quarterly, v. 5, n. 4, 1988, p. 565-587.
BARAK, Gregg. Media, process and the social construction of crime. New York: Garland, 1994.
BUDÓ, Marília de Nardin. Mídias e discursos do poder: estratégias de legitimação do encarceramento da juventude no Brasil. Rio de Janeiro: Revan, 2018.
CHANCER, Lynn; McLAUGHLIN, Eugene. “Public criminologies: diverse perspectives on academia and policy”, Theoretical Criminology, v. 11, n. 2, 2007, p. 155-173.
COHEN, Stanley; YOUNG, Jock. The manufacture or news: deviance, social problems & mass media. London: SAGE, 1981.

Referências artísticas

Ônibus 174 (José Padilha, 2002)
Documentário

Bandidos na TV (Daniel Bogado, 2019)
Série de TV

Olhos que Condenam (Ava DuVernay, 2019)
Série de TV

Marília De Nardin Budó
LattesORCID